Embora o Dia dos Pais tenha sido há três semanas, publico agora o texto que fiz ao meu pai, ao “tata”, àquele alemão cabeçudo que trata os nossos dois cachorros como filhos, tamanha a bondade e carinho que ele carrega em seu coração. Escrevo ao homem com o qual eu sou tão parecido, físico e psicologicamente... Hoje, é inegável nossa semelhança. Por bobeira custei a reconhecer isto, mas hoje me orgulho e tenho o prazer em constatar isso: sou sim igualzinho ao seu Jairo, o homem mais incrível e admirável que já conheci.
Ah, o “tata”.. Sim, assim eu o chamo, e, curiosamente foi essa a primeira palavra que pronunciei. Foi dele que herdei os adjetivos essenciais para seguir a carreira jornalística: a persistência e o gosto por “repassar informações” (como eufemismo para a fofoca... hehe). Outra característica que temos em comum é o grande valor que damos às nossas amizades e a garra que temos ao enfrentar os revezes do destino. Oh, como é bom ser parecido com ele!... Estou para conhecer um homem com tamanha humildade, resignação e honestidade.
Tenho o privilégio de meu pai nunca ter me deixado faltar nada. Nunca fomos ricos, daqueles que esbanjam dinheiro. Mas a prioridade dele e de minha mãe sempre foi eu. Eles sempre acreditaram no meu potencial e me apoiaram nas decisões. As dificuldades sempre foram dribladas para que minhas vontades fossem atendidas o máximo possível. E, graças a Deus, tenho orgulho em dizer que a todo esse investimento posso retribuir da maneira que eles merecem.
Nossa relação sempre fugiu a todos os padrões de relações entre pai e filho, e talvez seja esse o motivo que a torna tão especial.
É, nós dois brigávamos muito, principalmente na hora do almoço! Era sagrado cada meio-dia! “Eu não agüento mais vocês dois!”, irritava-se minha mãe. Mas penso que aquela era a maneira de demonstrarmos nosso carinho. Uma maneira fora do comum, eu sei. Mas a gente se entendia daquele jeito, e era feliz assim. Muito feliz!
O mais curioso de tudo é que, quando a minha mãe não estava junto conosco, a gente não brigava. Minha mãe sempre dizia: “Então sou eu o problema!”. Mas discordo dela: creio que aquelas brigas eram para disputar a atenção da mulher maravilhosa que ela é. Quando ele era caminhoneiro e eu viajava com ele nas férias, a gente se acertava muito bem, e nossa relação de pai e filho se fortalecia a cada instante.
Lembro dos meses, quando minha mãe se ausentou de nossa casa para tratar de sua saúde em Porto Alegre, em que nós dois nos unimos de uma maneira mais intensa. Naquela época, dependíamos um do outro. Cozinhávamos toda noite: ele assava sempre um pedaço de carne no forninho e eu fazia o arroz. Jantávamos e íamos nos sentar à área de nossa casa, sempre bebendo um samba de Velho Barreiro ou algumas cervejas. Não eram necessárias palavras para demonstrarmos o quanto estávamos sofrendo naquela época com a ausência de minha mãe. Nossa união em cada tarefa do cotidiano dava conta disso..
***
Dia 17 de fevereiro de 2008. Era em torno das 13h. Estava partindo de Pirapó para vir estudar em Criciúma. Já próximo ao carro, alguns familiares estavam ali enquanto arrumávamos, com um tremendo esforço, as muitas bagagens dentro do carro do meu tio Fernando, que nos levaria até Santo Ângelo. Foi então que, em meio àquelas pessoas, senti a falta do meu pai. “E o tata, mãe?”... E, para minha surpresa e comoção, ela disse: “Teu pai tá lá dentro do quarto, chorando. Vai lá falar com ele, Ale...”.
Não tive coragem de ir. Com a emoção à flor da pele que eu estava, sabia que seu fosse até lá, entraria em desespero e a partida seria ainda mais dolorosa. (olha o drama... hehe)
Instantes depois, meu pai veio até mim e, embora seu esforço em tentar esconder a tristeza escancarada em seu semblante, o rosto molhado denunciava seu sofrimento naquele momento. Despedi-me dos outros familiares que estavam ali e chegou o momento de falar com meu pai. Demos um abraço envergonhado diante daquela situação. Ele me disse com a voz embargada: “Te cuida lá, Ale!”. “Tchau, tata!”, foi a única coisa que consegui falar.
Queria falar tanta coisa naquele momento... Havia ensaiado um verdadeiro discurso para aquele dia. Queria pedir desculpas por todas as vezes que não retribuí da maneira que ele merecia o amor que sinto por ele, por todas as muitas coisas que falei a ele de maneira estúpida e impensada e que sei que o magoaram muito. E o mais importante: queria agradecer pelo pai incrível que ele foi e que, por machismo e imaturidade, eu nunca dera o braço a torcer para reconhecer. Nossa despedida se resumiu àquele abraço simbólico, e foi um dos momentos mais marcantes da minha vida.
Já no ônibus, vindo à Criciúma, perguntei à minha mãe o por quê que ele havia chorado. “Ele ficou com pena de ti por te ver saindo de casa para chegar a um lugar em que tu não conhece ninguém”... Meu pai sempre foi preocupado comigo. Ele nunca dizia isso em palavras, mas todas as suas atitudes para me ver feliz revelavam (e revelam) isso. Ah, tata... Jamais terei como agradecer tudo isso... Como eu te amo, admiro, o orgulho que sinto de ti...!
Por ironia (ou não) do destino, uma música de Oswaldir e Carlos Magrão - uma das duplas preferidas de meu pai - , “Um Pito”, resume aquele momento perfeitamente. “Olha guri, repares o que estás fazendo... Depois que fores é difícil de voltar... [...] Se vais embora, por favor, não te detenhas! Sigas em frente, não olhes para trás! Que assim não vais ver a lágrima existente, que molha o rosto do teu velho, meu rapaz.[...]”
Mas quero ser o responsável por fazer aquele rosto molhado de lágrimas ainda por muitas vezes. Só que não mais de tristeza ou dor... E sim porque tenho certeza que meu pai ainda vai poder se orgulhar muito de mim, e assim como eu tenho prazer em dizer que ele é o meu pai, ele ainda vai pronunciar com satisfação, com aquela gagueira peculiar a ele: “Esse é o meu filho! Esse é o Ale, esse é o MEU GURI!”
Te amo muito, tata. Obrigado por tudo, tudo mesmo.
Um abração.
Alessandro Engroff KOCHHANN.











Comentários