Grandes conquistas merecem ser relembradas para sempre. Por isso, depois de três meses sem postar neste espaço, volto para recordar uma data que, com certeza, não foi um dia qualquer. 5 de outubro de 2008 entrou para a história de, no mínimo, 2.472 pessoas de tal maneira que torna impossível não relembrar esta data hoje. Exatamente há um ano, eleitores de todo o país iam às urnas para exercer o mais soberano de todos os direitos: o voto democrático. Em algumas cidades, o pleito já pode ter caído no esquecimento, mas não na querência onde uma eleição define destinos: Pirapó, minha terra natal.
Cheguei lá no sábado à tarde, às vésperas das eleições. Os dias que antecederam aquele período foi movimentado. Quem visita este espaço com alguma frequência deve ter percebido, através de relatos e de meus textos, um pouco do ritmo frenético que transcorria lá. Pois bem. Cheguei preparado para ouvir alguns desaforos - havia recebido tantos aqui no blog, e imaginei que ao vivo seria pior. Mas não. (In)Felizmente me enganei - o "reconhecimento" foi dado pessoalmente apenas no Carnaval, o que não vem ao caso agora.
O sábado foi longo. Fiquei até 3h da madrugada conversando com meus amigos sobre o pleito que seria dali a poucas horas. Me inteirei em detalhes sobre tudo o que havia ocorrido nas últimas semanas. Diante de tantos absurdos de que fui informado, a certeza de que a vitória seria nossa surgiu de uma maneira sobrenatural. Ao ficar sabendo dos truques demoníacos usados por uns e outros, percebi que, se existisse realmente uma força divina superior a tudo, não havia o que temermos.
E então chegou o domingo. Seis e meia da manhã estava eu em pé, de banho tomado e vestido com minha melhor roupa, como se fosse a uma festa! Aquele dia foi o mais esperado por mim e tantas outras pessoas desde o trágico 3 de outubro de 2004. Foi um dia agitado, tenso, tal como se previa. Não poderia ser diferente. Estava cada vez mais próximo que definiria o rumo de vidas por, pelo menos, mais quatro anos.
Olhares de provocação entre adversários por todos os lados, piadas soltas no ar durante todo o dia. E flashes. Muitos flashes! Um evento que foi documentado à altura de sua importância. Os palpites também corriam a mil. Ora companheiros garantiam vitória para nós para mais de 100 votos, ora outros davam derrota por mais de 300. E, em meio a isso tudo, as unhas já estavam todas comidas e o coração apenas batendo para cumprir uma necessidade vital. Era realmente cruel. As voltas do ponteiros do relógio tornavam-se mais dolorosas a cada minuto que passava.
17h. Coração querendo saltar do peito. Não havia nada mais para ser feito. O resultado seria conhecido dentro de minutos, e muitos destinos viriam traçados juntos aos extratos das urnas. Confesso que me faltam palavras para narrar os momentos que se seguiram. Primeiro foi o resultado das urnas do centro da cidade. Os metidos a sabidões diziam que se desse "x" votos de diferença, ganharíamos. E, seguindo essa lógica, saímos em vantagem! Já nessa hora, muitos davam como certa nossa vitória. Vieram mais alguns resultados das urnas do interior, até que fomos informados de que em uma comunidade na qual sempre levávamos vantagem larga, desta vez havia diminuído drasticamente. Isso foi o suficiente para correr o boato de que a eleição estava perdida. Foi aquele desânimo.
A emoção sentida naqueles instantes é difícil expressar em palavras. Nem sei direito quanto tempo durou. Começamos a ouvir gritos vindos de algum lugar que ficava aos fundos da casa onde estávamos, e já achamos que eram nossos adversários comemorando a vitória. Uma sensação das piores. Imaginava meus desafetos comemorando aquela vitória que eu tinha certeza que seria nossa e que eu tanto esperara. Aqueles gritos me remeteram aos que eu tinha ouvido há quatro anos atrás e que me traumatizaram sobremaneira. Me valendo do lugar-comum, posso dizer que queria que o chão se abrisse sob meus pés.
Não sei se foi depois de segundos ou minutos, mas logo surgiu um amigo correndo ali onde estávamos. "Ganhamos, três votos! Três votos! Três!", repetia ele, mostrando com os dedos a vantagem mínima que ainda nos deixava em dúvida. Posso até estar exagerando, mas neste momento acho que não estava com todos os meus sentidos funcionando. As pernas moles, as mãos trêmulas, geladas, o corpo arrepiado do dedo mínimo ao último fio de cabelo. Uma explosão de sentimentos. De dentro, emergia aquela vontade única de gritar, chorar... Nós! Éramos NÓS que havíamos ganhado a eleição mais disputada e difícil da história de Pirapó!
Corri até a casa de minha tia, com aquele número ecoando na minha cabeça. Ia repetindo baixinho, contando nos dedos, coçando a cabeça... Acho que quem reparasse pensaria que eu estava sofrendo um ataque de esquizofrenia. Da casa onde eu estava até a de minha tia dava pouco mais de uma quadra, e já podia vê-los comemorando. Lá estava minha família e, claro, ela, a minha mãe. Quando estava chegando ao local, meu pai veio me encontrar, enquanto no céu já estouravam os primeiros fogos, anunciando a grande vitória. "Três votos, Ale! Três votos, Ale"... Era só isso que ele conseguia repetir. Em frente à casa, as pessoas pareciam não acreditar no resultado que haviam descoberto há minutos.
Pelo meio da multidão, já encontrei minha mãe, que, além do êxito na chapa majoritária, comemorava os votos que tinha feito nas urnas da cidade para vereadora e com os quais também já estava eleita. Eu, que até então não havia chorado, desabei ao abraçá-la. "Valeu a pena, mãe, ganhamos! GANHAMOS!"... Eu e ela, desta vez, derramávamos lágrimas de alegria, e não de dor e tristeza como havíamos chorado há quatro anos. Sabe aquela sensação de plenitude, de que vale mesmo a pena ir atrás do que a gente sonha? Aquela certeza de que há sempre alguém lá de cima olhando por quem é do bem... O rosto molhado de contentamento das pessoas que estavam naquele pátio foi um dos espetáculos mais lindos que já vi em toda a minha breve vida.
Ali, vi as mais diversas formas de comemoração. Pessoas se abraçavam, se beijavam... Aquela mistura de alívio, alegria, felicidade... Enfim, toda a emoção de uma vitória histórica e que traduzia um brado de liberdade. Lembro de uma companheira nossa, que se deitou nas gramas feito uma criança e batia os pés no chão, chorando e gemendo desesperadamente, o que, juro a vocês, lembrava alguém sofrendo uma epilepsia. A filha dela, que devia ter uns seis ou sete anos, chorava ao lado da mãe, certamente assustada com aquela comemoração extravagante. "Nós ganhamos, filha... Nós ganhamos, filha!", consolava a mulher. Foi engraçado. Acho que foi a comemoração mais original que vi. Um descarrego um tanto escandaloso de aflição e sofrimento, mas que simbolizava a comoção e o conforto que todos nós sentíamos naquela ocasião. Jamais vou esquecer daquela cena, como tantas outras daquele dia.
Fomos em silêncio para o salão, onde seria a festa. Andamos em silêncio, respeitando a lei que proibia comemorações na rua. Chegando lá, assistimos ali perto nossos adversários desolados, se retirando do comitê; alguns balançando a cabeça, obviamente incrédulos com o resultado recém recebido. Mas também não vou entrar em detalhes agora. Não escrevo este relato para provocar ninguém: apenas quero relembrar a emoção de nós, os "comparsas" que mostraram "quem é que podia cantar de galo naquele terreiro"...
Depois de quase uma hora no salão, finalmente instalaram a aparelhagem de som. Nem que eu viva mais que a Dercy Gonçalves vou esquecer da música que abriu oficialmente nossa festa. "Abre a janela, meu amor, abre a janela"... Os versos do grupo Tradição deram a largada à folia comemorativa que se estendeu madrugada a dentro, que teve (claro!) a célebre "Sola da Bota" como hit absoluto.
Minutos depois, chegamos ao auge da festa. Nossos candidatos adentraram o salão e foram recebidos como salvadores de um povo há anos sedento por aquele triunfo. Quando subiram ao palco, gritos de aclamação tomaram conta de todo o espaço. Eu, igual a tantos outros ali presentes, chorava feito criança. Lágrimas que lavavam a alma e anunciavam um futuro de paz. Imaginava nossos adversários escutando calados aquela vibração, o cantar de nossos "ganizés", que ecoava pela cidade inteira. Não que sermos vingativos seja algo positivo, mas que dar o troco numa moeda três vezes mais dolorida nos deixava extasiados... Ah, isso deixava!... E como deixava!
E ainda deixa. Daquele dia em diante, alguns fatos podem até ter provocado polêmicas, intrigas, desentendimentos normais inerentes à política de uma cidade pequena. Porém, o saldo continua muito mais positivo do que negativo, e é isso que importa. Não vou repetir aqui o que já escrevi em outros textos, nos quais já fiz todos os desdobramentos que esta história poderia render.
Aquela vitória significou o desejo de um povo que clamava por respeito, por humildade, por um trabalho honesto e igualitário. Ainda estamos muito no começo do caminho, as dificuldades aparecem e resolvê-las nem sempre é tarefa fácil. Contudo, contamos com mais de três anos pela frente e tenho certeza que o possível será feito com primazia, sempre. Críticas racionais sempre serão aceitáveis, ao contrário do desejo de manipular resultados e tentar anular o irrevogável, atitudes que, enquanto existir um mínimo de retidão no mundo, já foi provado e comprovado que não servirão mais do que motivo de piada.
Já diz o ditado que "enquanto os cães ladram, a caravana passa". E, neste caso, a caravana passa de trenzinho, cujos tripulantes servem como um aceno de esperança e paz numa cidade que já sofreu com os horrores de um neo-coronelismo sanguinário que, sem saber valer sua chance, foi abatido por um "bando de comparsas". Um bando que deu a prova de que é, sim, a "ralé" quem verdadeiramente sabe como é que a banda deve tocar... E aos que tiveram que, à contragosto, se reacostumar a este ritmo, meus amigos... eu só lamento!
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