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Centro Espírita Caminho de Luz: um farol de esperança em meio à periferia  escrito em segunda 06 julho 2009 22:17

 


Alessandro Engroff

"Lembro que foi em 1996. Uma menina que recém havia entrado na adolescência apareceu aqui desesperada. Estava grávida, mas não queria ter o filho. Era muito pobre, viciada em drogas e morava na favela. Veio nos pedir ajuda, e nós a ajudamos. Durante a gravidez, ela freqüentava nossos encontros e aceitou a situação. Mas nós sabíamos que ela não havia largado os tóxicos. Ela teve o filho, o que a deixou muito feliz. Porém, certa noite, quando o bebê tinha seis meses, ela saiu de casa para buscar drogas e deixou a criança mamando no berço. Quando ela voltou, o bebê estava morto. Morreu sufocado com o leite da mamadeira.”

Apesar de raras, histórias como esta, contadas por Elza da Silva Brito, de 65 anos, são marcantes na vida dela e de Custódia Demétrio da Silveira, de 60. O trabalho que realizam junto ao Centro Espírita Caminho de Luz, que fica no bairro Procasa, na periferia de São José, na Grande Florianópolis, é reconhecido mais pelas histórias de final feliz do que pelas tristes. Porém, os voluntários da organização não- governamental (ONG), que presta assistência aos moradores de favelas da região há quase 20 anos, precisam conviver com as mazelas latentes numa grande periferia - como drogas, violência e más condições de saneamento-, para trazer a alguns de seus moradores a esperança de que a vida pode, sim, ser melhor e mais feliz.

Fundada em 1989, a entidade filantrópica sobrevive apenas de doações dos freqüentadores do local e de pessoas da comunidade. “A ONG se mantém com as mensalidades, que variam de R$ 3 a R$ 10, dos freqüentadores do Centro, que são em torno de 50. Há também as doações de pessoas 'de fora', que ajudam apenas por bondade”, conta Elza. Além da função espiritual, o Caminho de Luz realiza atividades semanais de orientação à gestantes e distribui roupas e cestas básicas provenientes de doações para famílias pobres da comunidade. Aulas de informática, cursos de evangelização, de artesanato e de artes aplicadas também fazem parte da programação do Centro.

Elza e Custódia recordam com orgulho da evolução da ONG. Fundada por uma equipe liderada pelo advogado Aílton Fermino Cardoso, atual presidente da organização, a criação do Centro se deu com uma pequena doação da Federação Espírita Catarinense (FEC) e com o dinheiro arrecadado com almoços e cafés coloniais beneficentes. De uma pequena casa, o Caminho de Luz transformou-se numa sede de nove cômodos, divididos em salas de artesanato, laboratório de informática, sala de recreação e evangelização para crianças, biblioteca, refeitório, sala de reuniões e espaços para as rezas.

A dedicação dos 35 voluntários do Caminho de Luz em praticar a caridade reflete na esperança com que as gestantes beneficiadas pelo trabalho da ONG encaram o desafio que vem pela frente. Antes de assumirem a responsabilidade de colocar uma nova vida no mundo, as futuras genitoras descobrem uma estrada pela qual podem caminhar com mais segurança e preparo. Oito meninas, todas muito jovens, participam atualmente das atividades do Centro e trazem no rosto ainda assustado a expectativa da nova fase que está prestes a iniciar.

Crochetando a esperança: o apoio às gestantes

Elza é vice-diretora do Centro e trabalha no local como voluntária desde a fundação. Ela conta que o amparo dado às gestantes é uma das principais ações da ONG e que, embora perceba que as mulheres estejam mais esclarecidas hoje do que duas décadas atrás, as dificuldades em realizar um trabalho assistencialista em uma comunidade pobre ainda são um constante desafio. “Há meninas grávidas de 12, 13 anos, que chegam aqui sem saber nem o que está acontecendo direito”, relata.

Chaiene Jacinto, de 18 anos, chegou há cinco meses ao Centro sem muita instrução de como agir no período de preparação para a chegada do bebê. “Não sabia nem como pegar a agulha para fazer crochê e costurar as roupinhas para o enxoval do meu filho”, lembra ela, que está com nove meses de gestação e aguarda a chegada da criança para os próximos dias. Desempregada, Chaiene foi incentivada pelo marido e pela família a freqüentar os encontros no Caminho de Luz. “Este período foi muito bom para mim. Posso não ter conseguido fazer muitas peças de crochê, mas aprendi bastante e melhorei como pessoa”, conta, aos risos, confessando que nem todas as dificuldades com o artesanato foram superadas.

Custódia é voluntária no local há 12 anos e hoje é a dirigente do departamento de assistência às gestantes. Segundo ela, ao chegar ao Centro, as mulheres grávidas fazem um cadastro e, a partir de então, participam das aulas de orientação sobre o período pré-natal. Durante este tempo, as gestantes também assistem às doutrinações. “Em nossos encontros, temos aulas de artesanato, em que elas próprias confeccionam o enxoval de seus bebês”, conta, ressaltando que, depois de darem a luz, muitas meninas acabam encontrando na técnica um nova fonte de renda. “Elas freqüentam os encontros até o nascimento da criança, mas continuam recebendo doações de cesta básica e de leite por mais seis meses”, revela.

O número de cestas distribuídas por mês varia bastante, dependendo das doações. Segundo Custódia, hoje o Centro atende 12 famílias, além das famílias das oito gestantes. A equipe de apoio às grávidas é composta por seis voluntários. Não há profissionais especializados, como psicólogos ou médicos. De acordo com Elza, os colaboradores do Centro não encaram isso como um trabalho, até porque a doutrina espírita não permite. “Nossos voluntários estão aqui pelo prazer de ajudar, pelo amor que têm ao semelhante e porque sabem que somos todos irmãos perante Deus”, garante.

A história de vida de Ivonete Lima, de 50 anos, se confunde com a do Centro. Há 18 anos, ela chegou grávida ao Caminho de Luz buscando apoio e, desde então, não parou de freqüentar o local. Depois de tornar-se mãe, virou voluntária, e, hoje, ensina as meninas gestantes a fazer o enxoval dos bebês. “O que aprendi lá na década de 90 posso agora repassar às futuras mamães. Isto é muito gratificante. É tão boa essa sensação de ajudar que não saí daqui nunca”, afirma, emocionada.

A solidariedade que ilumina a estrada

Além do caráter filantrópico, a ONG também disponibiliza quatro doutrinárias por semana – reuniões em que se debatem temas presentes no dia-a-dia, como a solidariedade e o amor ao próximo. Nas sessões, segundo Elza, não é somente ensinada a doutrina espírita. “O que repassamos nestes encontros são os ensinamentos de Jesus, os ensinamentos do amor... E é essa a razão do sucesso do nosso trabalho”, acredita. Ela também conta que, embora o Centro atenda a pessoas carentes de bairros como Chico Mendes, Monte Cristo e Barreiros, a ONG não rejeita nenhuma pessoa que for até o local pedir ajuda. “Claro que a maioria de nossos assistidos são pessoas que não tem estrutura familiar nem financeira de agir corretamente no período da gravidez, mas todos que confiarem em nossas ações vão receber atenção e carinho. Estamos aqui para fazer o bem sem olhar a quem”, assevera.

Segundo a Secretaria de Ação Social de São José, o Caminho de Luz é o único projeto nestes moldes de auxílio do Procasa. As jovens gestantes que freqüentam o local são mulheres que reorganizam suas vidas através de um projeto social, para, somente depois, trazer à realidade um novo ser. Realidade que para quem vive numa periferia, para a qual são direcionadas poucas ações assistencialistas, pode ser mais difícil de se viver do que o mundo ideal, livre da penúria e da violência, que uma mãe sonha em proporcionar ao seu filho. Porém, o amor com que pessoas como Elza, Custódia e Ivonete e todos os outros voluntários do Caminho de Luz se destinam a colaborar com a transformação, por mais tímida que seja, deste sonho em realidade, acalenta as futuras mamães. Mulheres que, em breve, terão nos braços pequenos seres, aos quais vão ensinar por que caminhos eles devem seguir.

* Reportagem produzida na disciplina de Redação III, com o tema "Pauta livre na periferia".

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  • Aline mailto

    Sex 07 Ago 2009 14:27

    Boa tarde! Sou da agência Fundamento, que trabalha com a CNN International - canal de notícias. Se vc tiver interesse em participar de um estudo que estamos fazendo sobre telejornalismo, por favor, encaminhe para mim seu e-mail. Obrigada