No início de outubro de um certo ano, num pago distante,
numa das fronteiras do nosso Brasil, houve um dia
memorável!
Era chegado o dia das eleições municipais daquele lugar,
que encerrava um período de campanhas avassalador, no qual disputas
acirradas deram, infelizmente, o tom violento e amedrontador que se
esperava àquele embate.
Por parte de alguns políticos, via-se atitudes coerentes
à ética e à honestidade que aquele processo democrático defendia.
Respeitosos e sem demagogias, os candidatos iam a público para
explanar propostas e compromissando-se em devolver à população um
trabalho exemplar que realizaram por muitos
anos.
Trabalho este que, por uma grande estupidez do destino,
tiveram que interromper para ceder lugar a pretendentes que, até
então, eram considerados a esperança da oposição em chegar ao poder
e realizar as tão sonhadas mudanças no município.
A chance foi dada. A mudança aconteceu. Porém, para a
pior. Um município que, até então era símbolo de progresso,
retrocedeu. Retrocedeu, principalmente, em setores que eram
prioritários para a qualidade da vida de seus
habitantes.
Enquanto se construíam algumas obras na cidade, pensadas
somente para causar uma impressão de luxo e ares de “grandes
feitos”, a desolação e o abandono às reais necessidades do
povo trouxeram ao município o desprezo e o descaso da administração
para com o povo. Um povo que, enganado, passou a sofrer com a falta
de ações públicas que tanto precisavam para que pudessem levar uma
vida dignamente humana.
Mesmo
assim, foi tentada a reeleição. Com a notável desconfiança dos
eleitores em eleger novamente os mandatários que haviam trazido à
população dias de amargura e sofrimento, os candidatos e seus
correligionários ameaçaram a integridade da eleição, em busca de
uma nova vitória.
De estratégias ilícitas em busca de votos, as apelações
para sortilégios malignos assinalaram o ápice do desespero diante
de derrotas que eram presumidas. Assim, rebaixaram a um patamar
assombroso a tríade da “igualdade, liberdade e
fraternidade” que o regime político tinha como
características.
***
No mundo virtual, blogueiros deram sua cara a tapa,
publicando textos que denunciavam a realidade revoltante que se
encontrava naqueles municípios. As escritas repercutiram: alguns
políticos e seus aliados deram importância aos simples artigos,
redigidos por jovens com espírito dominado pelos ideais de
liberdade de expressão e no desejo utópico em mudar o
mundo.
O que eram pra ser opiniões propensas a cair no ridículo,
repercutiram de maneira estrondosa. Avalanches de comentários por
parte dos leitores dos blogs. Alguns apoiando, outros
criticando e, arrogantemente, até
ameaçando.
Estes últimos, maldosos e ofendidos, tentavam acuar os
editores dos diários eletrônicos, postando comentários de nível
absurdamente baixo. Apegavam-se a detalhes mínimos para retrucar as
grandes verdades presentes nos textos. Deduções bestas visavam
manipular as opiniões expressas nos artigos, querendo transformar,
infantilmente, convicções puramente pessoais em ideais
partidários.
Porém, a cautela e a prudência prevaleceram diante destes
comentários. Satisfeitos ao verem certos políticos desnudando-se de
vez dos personagens que, embora já desacreditados em virtude das
atitudes atrozes tomadas por eles desde que assumiram o poder,
ainda insistiam em apresentar à sociedade, os editores dos
blogs calaram-se.
A
repercussão dos textos somou à sensação desesperadora da derrota
que se anunciava a cada momento. Assim, o esforço em fazer
predominar a ostentação de conhecimentos adquiridos em faculdades
de ensino superior sucumbiu aos crescentes sinais de descontrole
das faculdades mentais...
A data mas
aguardada daquele ano, em que seria provado o “poder de
decisão dos eleitores, da população que temia o futuro”,
finalmente, então, chegou.
O resultado das eleições municipais deu a resposta aos
absurdos cometidos por alguns mandatários que, com revolta e
indignação, vinha-se presenciando nos últimos
anos.
A plebe derrotou a
mais fina flor da sociedade.
***
A derrota serviu como
uma bruta mordaça aos “bobos que ainda acreditavam” no
triunfo de postulantes que, naquele ano, consagraram-se como os
mais desumanos que se envolveram na história da política daquela
cidade.
Diante daquilo, também se justificaram os textos dos
humildes blogueiros. Blogueiros que, prudentes ao calarem-se no
período pré-eleitoral,
transformaram o silêncio de antes em comemorações vibrantes com
resultado vitorioso das eleições.
***
Após as eleições, os vitoriosos devolveram, quase na mesma
moeda, as provocações que sofreram quando foram derrotados no
passado. E essa semelhança nas comemorações de vitória provocou
revolta nos que foram destroçados com o resultado das urnas daquele
ano. Estes, através de acusações pessoais e hipocrisias asquerosas,
alegavam que, por parte de alguns blogueiros, por exemplo, faltava
respeito à dor que afligia os que foram
derrotados.
Mas,
ao analisar a situação, considerando todos os fatores que a
envolviam, foi fácil chegar à conclusão de que os ofendidos com as
provocações de pessoas que triunfaram nas eleições não tinham
direito algum em exigir respeito.
Que
maneira devia-se tratar as pessoas que apoiavam candidatos que
subiam em palanques e iam à rádios para proclamar discursos
que mais se assemelhavam a berros desesperados de animais em
sangria? Que se pronunciavam publicamente, de maneira estúpida e
ignorante, chocando a população, crentes que estavam construindo
uma imagem que seria aceita pelos eleitores? Aqueles tipos de
pessoas maldosas seriam respeitáveis?
Como respeitar grupos de pessoas que, enquanto estavam no
poder, transformaram aquele município em uma guerra civil,
ocasionando mortes e conseqüências irreversíveis à vida de pessoas
de bem? Como respeitar os que queriam prejudicar funcionários
públicos pura e simplesmente pelo fato de serem adversários
políticos, tudo em nome da vingança e da sede de
poder?
Como respeitar mandatários que, em reuniões sociais, nos
últimos quatro anos, via-se com um comportamento contraditório ao
que representavam quando postulavam um cargo eletivo, semeando a
discórdia e a desarmonia?
Era vergonhoso assistir ao espetáculo do horror que era
presenciar representantes máximos de um município se
‘divertindo’ como crianças irresponsáveis, ou de não
conseguir conceder entrevistas a meios de comunicação, devido ao
excesso de “Coca-Cola” presente em seu
organismo...
Foi o fim de fingimentos e de discursos falidos. O
resultado das urnas decretou quais valores humanos realmente eram
dignos de confiança e, principalmente, do tão exigido
respeito.
Revelou-se o verdadeiro caráter e o suposto
“status social” que comprometeu as
dissimulações que certos candidatos insistiam em transparecer à
realidade em que viviam. Quem antes era visto como exemplo de
sabedoria e responsabilidade, tornou-se símbolo da crueldade humana
e da cegueira motivada pelo alcance do
poder.
***
O resultado daquelas eleições foi a prova de que havia uma
força divina superior a tudo. Foi o renascimento da esperança de
que a justiça ainda existe no mundo. Comprovou-se que, por mais que
tarde, ela jamais falha.
Teve-se a demonstração cabal de que nem a elite, nem a
plebe, aprovavam condutas desrespeitosas e nojentas para conquistar
o poder... Mais do que isso: o resultado das eleições assinalou a
ruína, moral e financeira, de famílias prepotentes. Famílias que
tiveram de desmontar seus equivocados egos, que viram cair por
terra a idolatria a um falso rei, o qual julgavam perfeito e
invencível...
A
máscara daqueles ‘deuses’, erguidos em pedestais da
perfeição por uma classe que se julgava superior, havia
caído. Rei, a partir
daquele momento, somente os que os membros daquelas famílias foram
obrigados a vomitar de suas barrigas...
A honestidade, o respeito e a verdadeira experiência
saíram soberanas naquelas eleições. O que antes era considerada
elite, passou à condição de plebe. Porém, uma plebe que ia além da
falta de influência ou de abastamento financeiro: era a plebe que
não possuía respeito nem dignidade, que foi sendo desmascarada,
lentamente, enquanto bebia, gota a gota, o seu próprio
veneno...
***
Os que, através de comentários publicados em blogs,
acusaram blogueiros de hipócritas, usando-se daquela máxima de que
“não olhou para o próprio rabo”, por julgar o
comportamento desapiedado de alguns membros de atuais
administrações, também foram açaimados.
O
resultado daquelas eleições provou que população entendia que o mau
humor, muitas vezes, era gerado por uma postura rigorosa de ética e
profissionalismo, e não por um completo desequilíbrio emocional
presente na índole das pessoas às quais os autores dos textos se
referiram nas críticas. Entretanto, até era possível entender esta
reação dos autores dos comentários: ética e profissionalismo eram
estranhos à sua realidade.
Aos
blogueiros, muitas vezes ironizados de maneira risível pelos
inimigos, ficou a satisfação em vê-los ter de engolir, com a
derrota, a arrogância de acusá-los por “falta de
caráter” pelo silêncio demonstrado diante dos comentários
insultantes.
Quem
se apoiara na liberdade de expressão para denunciar fatos, tendo
plena consciência de que não faltava com a verdade, jamais se
sentiriam acuados. Prudência e medo tem significados completamente
distintos. Quem não sabia, poderia ter “jogado no
Google” para descobri-los.
Nem forçar situações ou utilizar recursos que remetiam
aos utilizados durante a ditadura ou ao coronelismo foram, e jamais
seriam, capazes de invalidar a voz do povo, que, como já diz o
ditado, é a voz de Deus.
Faltou senso de equilíbrio a alguns comentaristas, que
não souberam como controlar seu desespero diante das denúncias de
algumas das falcatruas cometidas por seus candidatos. Ah, se todas
as falcatruas fossem apresentadas... A frágil estrutura emocional
de algumas pessoas desmontaria a ponto de tornar-se fatalmente
perigosa àqueles que denunciassem mais fatos
comprometedores.
Aos
jovens, ficou a lição da necessidade da valorização, antes de tudo,
da humildade. Humildade de “não ter a vergonha de ser um
eterno aprendiz”. Aprender sempre, com honradez e
honestidade, com a prudência de não se julgar superior ao restante
da sociedade ao obter um diploma de curso superior, por
exemplo.
Ficou evidenciado que, mesmo após exaustivos anos de
estudo, o intelecto jamais será suficiente, por si só, para atingir
o sucesso. Se não equacioná-lo com os valores humanos, o equívoco
de elevar-se a um nível acima dos demais pode ser desfeito em um,
dois, TRÊS segundos...
Equilíbrio, bom senso
e educação são para poucos. As pequenas conquistas que consagram
grandes vitórias também. É preciso
“tá...lento” pra isso. Muito
“tá...lento”!
Se
foram destruídas amizades sólidas devido aos textos, nada mais
restava senão compreender a relutância em aceitar a verdade quando
estava ali, diante de todos. Depois daquelas eleições, ficou
irrefutável que somente os “tá...lentosos” poderiam
dizer “Pai, mãe, eu me orgulho de vocês! Eu me orgulho de seu
caráter honesto, da sua ética, do seu comportamento, do trabalho
que você fez... Enfim, de tudo que respaldou a sua
VITÓRIA!”.
Esta sensação, porém, não poderia ser conhecida nem
“jogando no Google”. Mesmo tentando se auto-enganar, a
realidade que foi escancarada naqueles últimos dias jamais
consertaria os orgulhos que foram feridos. De uma maneira brutal,
os olhos foram abertos, e um “orgulho doído, cheio de
vergonha e decepção” silenciaram os pios egocêntricos de
muitos pintinhos e pintinhas, estes, sim, “infelizes
aprendizes” da falta de caráter e de
ética...
***
Sairiam as limusines e voltaria o trenzinho da alegria! Aquele
trenzinho cheio das pessoas que o povão queria, que o povão pedia a
volta, e que, a partir daquele momento, o povão teria de volta...
Não havia como contestar a vontade da população. Era a amostra
democrática que emanou do povo, sem fraudes ou fanatismos
negligentes.
Aqueles que teimavam em afirmar que, nos tais
“trenzinhos da alegria”, só existiam passageiros
incluídos em um jogo de interesse, não estavam errados por
absoluto. Entretanto, há algum lugar neste mundo em que este jogo
não se institui? Abusaram da petulância em desconsiderar este
fato.
Porém, através do voto, a população escolhera em qual
jogo seria mais bem beneficiada, com um trabalho pautado na
honestidade, no respeito e na igualdade. A resposta chegara, e o
apito do trenzinho começava a soar, anunciando a sua volta para o
bem do povão que o
escolhera...
***
Aos que perderam, ainda restava a humildade em aceitar a
derrota. Já seria um bom começo para restabelecer a ordem de suas
realidades tão combalidas... Para isso, era essencial que se
reconsiderasse quais condutas eram realmente necessárias ser
seguidas para que voltassem a ser, outra vez, vistos pela sociedade
como pessoas, no mínimo, merecedoras de conviver junto a seres
humanos.
Apoiar-se em disfarces repulsivos para persuadir as
pessoas, com as quais passariam a conviver na nova vida que
seguirão após a derrota, até poderiam ser eficazes num primeiro
momento... Porém, quando aquelas pessoas necessitassem do respeito
e da honestidade para continuar se relacionando socialmente, teriam
de se isolar...
Educação, respeito e um comportamento humano não se
conseguem através de cursos superiores. Estas qualidades,
fundamentais para qualquer relação, são intrínsecas ao ser humano,
independente de sua condição social, cultural ou financeira. Ter
freqüentado ambientes universitários não sanam esta deficiência de
ninguém, teve-se provações taxativas
disso.
***
E “como num
filme, no final tudo deu certo”...
A falsa imponência, aparentemente inatingível, de algumas
pessoas, desabou juntamente com desmaios ocasionados pela notícia
da derrota... Os risos
debochados, que se via no semblante de militantes convictos na
vitória até o último instante, cederam lugar a lágrimas amargas da
decepção... Lágrimas ardidas após um último e fatídico capítulo de
“um bom dramalhão mexicano” escrito por eles mesmos...
A comédia virou tragédia - e bem mais trágica do que as
gregas.
O que
seria uma festa da vitória, transformou-se num mar de lágrimas que
molharam um terreno coberto por penas brancas... “Pessoas com
grau de estudo elevado e seus assessores altamente
qualificados”, juntamente com seus admiradores, foram obrigados a tragar o
orgulho de serem derrotados, democraticamente, por seus
opositores. Opositores que, embora criticados por eles pela falta de
abastamento financeiro ou por problemas pessoais, conquistaram a
vitória por possuírem qualidades que os perdedores jamais
possuiriam: ética, respeito e honestidade.
A
derrota continuaria sendo sofrida pela eternidade. Martírios pelos
detalhes mínimos que definiram vidas. Consciências pesadas pelas
falhas simples, porém decisivas, jamais seriam aliviadas. Ficou-se
na torcida de que, com aquela trágica experiência, houvesse um
repensar sobre o que é realmente válido para conquistar o êxito,
seja ele na vida privada ou na pública...
Porém, que não tentassem mais se apoiar em manipulações
ou meios desesperados de alcançarem a vitória. O mundo deu voltas e
Deus, como sempre, acabara mostrando o caminho. Restava aceitar
segui-lo ou não.
A reconstrução de morais admiráveis jamais seria feita;
todavia, ainda estava em tempo para que ao menos alguns erros
fossem consertados... O mundo continuava cheio de oportunidades.
Pessoas preparadas sempre teriam chance de
progredir.
Todavia, o preparo HUMANO sempre seria soberano ao
intelectual, pois, no mundo, se convive em sociedade, não em
gaiolas fechadas com fios de ouro... Que refletissem sobre isso os
que viram suas penas saírem voando por entre três
dedos...
***
Já a vitória... Ah, a vitória... Como era doce, ainda
mais quando se tinha a certeza de que se repetiria por muitas e
muitas vezes, numa seqüência infinita e definitiva. Como era plena
a sensação de saber que a paz e da harmonia estariam de volta, em
um ambiente com um “pórtico” seletivo, onde só
entrariam pessoas de bem e que sabiam dar valor e respeitar a todos
que ali conviviam.
Pela eternidade, a vitória seria
comemorada entre comparsas alegres, de alma lavada e com
consciência tranqüila... Comparsas unidos, fraternos, que nunca
mais deixariam o povo, que necessita deles, fosse feito refém de
grupos monárquicos e antipolíticos.
E, claro, vitória que sempre seria
celebrada entre suculentos churrascos de vaquinhas brancas e ao som
dos ritmados embalos da “Sola da
Bota”...
***
É penta!, e ponto.
Um
abração,
Alessandro
Engroff.
Comentários