Alessandro Engroff
Do ano 2000 para cá, o
número de instituições no Brasil que passaram a oferecer o curso de
Jornalismo nos processos seletivos mais que dobrou, passando de 300
em todo o país. Somando-se a isso os equivocados planos de glamour,
fama e dinheiro que ainda são atribuídos pelos jovens acadêmicos de
Jornalismo à realidade da profissão do jornalista, o curso passou a
ocupar uma posição alarmante na lista dos cursos superiores
que, possivelmente, vêm tendo suas escolhas vulgarizadas nos
últimos anos.
Com a facilidade de ingresso nas faculdades, principalmente nas
particulares, houve uma proliferação preocupante de jovens que
ingressam no curso com a presunção de que, com o diploma de
jornalista, a vida profissional se dará por viagens, aparições na
televisão e status social. A imaturidade, geralmente comum
à idade em que se tem de escolher o curso para se prestar o
vestibular, é um agravante dessa realidade.
Embora o aumento do
número da demanda de cursos de Jornalismo, uma análise da Federação
Nacional dos Jornalistas (Fenaj) faz uma ressalva.
“É
possível que, nas listas de Comunicação Social, tenham sido
contabilizadas outras habilitações que não as de Jornalismo, como
os cursos de graduação em Cinema e Vídeo, Radialismo, Rádio e
Telejornalismo, Produção Editorial e Publicação, entre
outros”.
Porém, um exemplo
concreto do aumento da procura pelo curso é o dado apresentado na
lista dos cursos mais concorridos da Fundação Universitária para o
Vestibular (Fuvest), o exame considerado o mais disputado do país.
Após dez anos, o curso de Jornalismo voltou a aparecer na primeira
colocação. A concorrência é de 41,63 candidatos por vaga -- são
2.498 vestibulandos querendo ocupar uma das 60 vagas oferecidas
para a carreira da Universidade de São Paulo (USP). Em contraponto,
o curso de Medicina, que, em outras universidades do país,
geralmente figura com o maior número de candidato/vaga (c/v), fica
na 5ª posição, com 33,99 c/v.
Entre os estudantes
de Jornalismo, as opiniões divergem entre a existência ou não desta
banalização. Para a acadêmica Marluci Stein, que cursa o 6º
semestre do curso em Porto Alegre (RS), a escolha pelo curso não
chega a ter se tornado banal. “Percebo que
a escolha por jornalismo, muitas vezes, é precipitada pelos
estudantes, que ingressam na faculdade com a vontade de querer
mudar o mundo”, opina. “A
opção por este curso deve ser muito bem pensada, para evitar as
desistências no meio do caminho e o crescente número de jornalistas
que trabalham em outras áreas”,
complementa.
O
estudante da Faculdade Estácio de Sá, em São José (SC), Guilherme
Lira, que também está no 6º período de Jornalismo, inclui o curso
na lista dos que vêm tendo suas escolhas banalizadas nos últimos
anos. “Acredito
que, assim como Administração, Direito e, mais recentemente,
Fisioterapia, Jornalismo é um curso da moda, que caiu no gosto
popular”, afirma, exemplificando que, no caso do Jornalismo,
as pessoas confundem o glamour passado por repórteres de TV e
julgam que ser jornalista é uma forma de ficar famoso.
“Muitos equívocos como este vão caindo ao longo da faculdade
e as pessoas desistem. Os choques com a realidade são muito fortes
e as pessoas não agüentam descobrir que não sabem escrever, que
lêem muito pouco, ou que não têm boa dicção para o rádio, ou
postura para a TV”, finaliza.
Entrevista
A seguir, uma entrevista com os coordenadores de dois dos três
cursos de Jornalismo oferecidos na região da Grande Florianópolis.
Luciano Bitencourt, da Universidade do Sul de Santa Catarina
(Unisul), em Palhoça, e com Aureo Moraes, da Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC), na Capital. Os jornalistas comentaram a
respeito do tema sobre a banalização pela escolha do curso,
analisando pontos que abrangem desde a desistência do curso até as
medidas necessárias para impedir que esta tendência
aumente.
Na universidade na qual você coordena o curso, é notável a
banalização pela escolha do curso de jornalismo? Você acha que a
facilidade em passar no vestibular, geralmente maior no vestibular
das universidades particulares, em relação às públicas, contribui
para essa escolha?
Bitencourt
- A questão da eventual banalização é mais complexa. Em primeiro
lugar, é preciso reforçar que o vestibular tornou-se uma prática
descontextualizada. É um processo seletivo. E processos seletivos
só servem para lugares em que a seleção precisa ser rápida e os
critérios, eliminatórios. Sendo assim, se justifica em lugares com
grande demanda em relação à oferta. Em si mesmo, o vestibular não
garante o acesso dos mais qualificados para o curso; no máximo, dos
melhores preparados para a prova seletiva. E são coisas diferentes.
Em segundo lugar, não creio que a opção pelo jornalismo esteja
banalizada. Creio que a visão do jornalismo ("vendida" inclusive
pelos próprios cursos) é que está fora de contexto. Como mediador
social, o jornalista está perdendo sua função e, ele próprio,
banalizando sua atividade, sendo conivente com os processos de
exclusão social e se colocando ao lado das esferas de poder. Além
disso, o jornalismo, para quem está ingressando no curso superior,
não é uma atividade muito clara; ela se confunde com a das outras
habilitações. Creio que a grande maioria dos estudantes só vai se
dar conta do que é ser jornalista ao longo do curso.
Moraes
-
O único, ou um dos únicos indicadores que podem comprovar esta
"tese" - de que os alunos escolhem mal o curso - é o índice de
desistência. No curso de Jornalismo da UFSC, o percentual de alunos
que desistem, sobretudo na primeira e segunda fases, não chega nem
perto dos 10%. Quando há desistência ela alcança dois alunos no
máximo, entre os 30 que ingressam todo ano. Portanto, não
percebemos que haja, por aqui, a tal banalização.
Ao ingressaram no curso, quais os principais motivos que os alunos
alegam por ter feito a escolha por
jornalismo?
Bitencourt
- Os motivos para ingresso são muito variados para fazer
apontamentos taxativos. Não consigo identificar razões consistentes
que representem um número significativo de alunos.
Moraes –
Em regra, a escolha tem a ver com uma idealização que os jovens
fazem da profissão. No caso da de jornalista não é diferentes das
demais - Medicina, Direito, Engenharias. O homem idealiza um
futuro, reúne as suas habilidades e preferências e constrói um
modelo daquilo que pretende realizar profissionalmente. Assim é
que, me parece, funciona a escolha. Há os mais comunicativos,
aqueles que gostam de escrever, os aficcionados por tv, rádio,
internet, etc. Daí partem para a escolha inicial e, se forem bem
orientados, fazem da opção por um curso universitário sua
profissão.
Ainda percebe-se, por parte dos acadêmicos, a presunção de que
"jornalismo é glamour"? Este é um dos motivos que os motivam a
escolher pelo curso?
Bitencourt
- Ainda há quem pense assim. Mas creio que essa visão está mudando.
O sentido de glamour vem do trabalho televisivo. E essa mídia já
está "morrendo". Ainda vai demorar um pouquinho para que se perceba
isso por aqui, mas o campo de trabalho está migrando para espaços
em que o glamour não cabe. Acho que o problema é a idéia de que o
jornalista é meio que o dono da verdade. Essa característica é mais
forte. E hoje, os estudantes tendem a não compreender que o
discurso jornalístico não deve expressar verdades absolutas
(sobretudo as opinativas). O discurso jornalístico ainda é um
"discurso de verdades", quando deveria ser o discurso resultante do
exercício intelectual de interpretação do mundo e, portanto, uma
versão possível.
Moraes - Não
sei... Pelo menos tal idéia está, normalmente, associada ao
telejornalismo. Contudo, como nosso projeto pedagógico não
privilegia nenhuma área, os alunos estudam todas, desde os pontos
de vista téorico e prático. Assim, qualquer presunção de que o
jornalismo é glamour, ou que eles estarão se formando "artistas de
TV" cai por terra, quando se defrontam com as demandas mais sérias
da futura profissão.
Há muita desistência no decorrer do curso? Por quais
motivos?
Bitencourt
- A desistência é comum em todos os cursos. Não creio que haja uma
razão específica, em que se possa colocar toda a responsabilidade
sobre o jornalismo enquanto atividade. As dúvidas já antecedem o
ingresso. Tradicionalmente, a escolha por um curso de nível
superior é acompanhado de angústia e imaturidade. O sistema de
ensino brasileiro é perverso nesse sentido. É o sistema que gera
esses sentimentos, digamos. As desistências são
decorrência.
Moraes –
A resposta a esta pergunta está na resposta da primeira, já que
ambas têm relação diReta.
Quais as ações que deveriam ser feitas para impedir o aumento dessa
tendência da banalização do curso?
Bitencourt
- Mesmo não considerando a banalização desse processo, posso dizer
que há questões que precisam ser pensadas. Estamos discutindo, por
exemplo, a exigência do diploma para o exercício profissional, como
forma de qualificar a atividade jornalística. Mas está cada vez
mais difícil acompanhar os noticiários. As informações são mal
apuradas, o discurso é autoritário e os interesses quase nunca
estão expressos (mesmo que implicitamente) nas matérias. Só para
apontar algumas questões. A discussão sobre o diploma está restrita
à uma perspectiva de "reserva de mercado". Para discutir a
qualificação pelo diploma, seria preciso, primeiro, discutir o que
se propõe como qualificável nos postos de trabalho (já escassos nos
moldes tradicionais). A discussão é simplória, sem profundidade.
Creio que são os debates em torno das questões sociais relevantes e
os discursos decorrentes é que estão banalizados. E isso traz
reflexos diretos nos processos de formação acadêmica.
Moraes -
Não concordo com a tal banalização. Penso que o que existe são dois
aspectos. Primeiro: imaturidade na hora de escolher um curso
superior. E isso vale para qualquer profissão. Os jovens da atual
geração recebem muita informação, mas a processam mal. Lêem pouco,
refletem quase nada. Assim é natural que escolham por várias outras
influências e menos por convicção. Segundo: uma vez escolhido o
curso de Jornalismo, o que vai determinar se a escolha foi correta
ou não é, ao meu juízo, a qualidade do ensino oferecido. Um curso
sem qualidade, sem consistência, leva mais cedo à conclusão de que
a escolha foi errada.
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